sábado, 14 de novembro de 2015

House Tremere - Capítulo 1 - Parte 1

A aparição Ponticulus possui o corpo do mago Bitiurges e começa a escrever uma carta....


Resolvi ir postando partes já traduzidas de alguns livros, já que há imensa dificuldade de encontrar tradutores. Melhor estes textos serem divulgados do que ficarem só no meu HD.
Divulguem o Blog para seus amigos, para que cada vez mais possamos trazer-lhes este tipo de material.

Capitulo 1 – antiga podridão

Cortado está o ramo que cresceria ereto,
E queimados estão os ramos de louro de Apolo,
Que outrora cresceram deste sábio.
- Christopher Marlowe, Doutor Fausto




    REVELAÇÕES
      O TESTAMENTO PÓSTUMO DE PONTICULUS,
       EX-MAGO DE CEORIS

  
                                                                                                                                                                            Bitiurges,
        Quão estranho é ter carne novamente... sentir uma pena em minhas mãos, sentar numa cadeira...passar a mão sobre a superfície desta escrivaninha. Eu sinto uma sensação de alegria, de intoxicação. Mas esta não é a razão de eu ter tomado seu corpo, de segurar a pena em sua mão que tomei emprestada. Eu já posso sentir sua vontade lutando contra mim, e eu ainda tenho muito a escrever.
            Embora eu tenha morrido muito antes de seu nescimento, Bitiurges, eu o conheço bem. Eu o tenho observado. Não fique surpreso. Saiba que Ceoris é cheia de olhos, e não há nem dois pares trabalhando para um mesmo fim. Meus olhos são aqueles de uma sombra miserável e desamparada. Eu vejo tudo que ocorre neste fosso de ambição cega e assassina. Eu vi o bastante de você para saber que escondido debaixo de seu ar empertigado e de suas roupas de pavão há uma mente afiada, faminta pela verdade. Eu escreverei até que seu braço doa. O Alimentarei com mais verdades do que seu estômago pode aguentar. Isso pode causar espanto, Bitiurges. Mas não deixe o medo ou cautela impedí-lo de fazer o que é necessário. Você, de todos os magi ainda vivos, é a minha melhor esperança. Eu o acho mais pé no chão do que aquela estúpida beijadora de cruz, Tosia. Você certamente compreende que a missiva que eu escrevo com sua própria mão é mais do que apenas uma mensagem de algum imp ou demônio. Investigue os fatos que ponho diante de você, Bitiurges. Conheça suas verdades. Tome ações, eu imploro. Os monstros ainda podem ser destruídos, antes que tudo esteja perdido.
            Sua mão não hesitou quando eu escrevi “ainda vivo”, Bitiurges. Continue lendo, e eu explicarei.
    

A CONSAGRAÇÃO: ANNO DOMINI 980

        Vinte anos antes da virada do milênio, sete homens e mulheres se encontraram nas florestas montanhosas da Transilvânia central. Eles estavam de pé — juntos sobre um rochedo próximo de uma trilha. Eu era um dos sete. Eu me lembro do sol se pondo e iluminando as últimas nuvens com um tom alaranjado. Embora a beleza do momento estivesse impregnada por uma sensação estranha, ainda era maravilhosa. Foi a última visão agradável que meus olhos vivos iriam saborear.
            Nossos guias, soldados e criados mantiveram distância, enquanto vigiavam os cavalos. Havia duas dúzias deles, eu suponho. Eu não tinha o hábito de prestar atenção em nossos empregados. Na época, eu não era capaz de notar o medo deles. Agora que passo horas e mais horas vigiando os criados de Ceoris, observando-os em seus desejos e em seus trabalhos pesados, posso melhor avaliá-los. Eles tinham razão se estarem amedrontados. Eles haviam visto e ouvido muitas coisas perturbadoras durante os anos em que estiveram nos  servindo. Sendo pessoas comuns, mulheres que esfregam suas panelas e homens que vigiam os seus muros, eles nos viam como mestres excêntricos e ameaçadores. Poucos deles nasceram na Transilvânia, mas agora conheciam o lugar bem o bastante para temer passar a noite em suas florestas. Várias criaturas vis e perigosas, enviadas por Satanás, assombravam as colinas e os vales. Eles sabiam que não poderiam depender de nós e de que usássemos nosso poder para protegê-los caso as criaturas viessem. Seriam eles, os servos, que deveriam levantar rapidamente os seus machados.
            E porque nós, os indivíduos da elite vestidos de túnica, nos importaríamos com o destino de meros homens descartáveis? Nós já tínhamos vivido centenas de anos, mantendo a nossa vitalidade através de ritos místicos e extratos alquímicos. Nós éramos magi, criadores de maravilhas cujo domínio dos segredos da feitiçaria nos permitiu transcender as leis da natureza, inclusive o envelhecimento de nossos próprios corpos. Liderando-nos estava um homem alto de olhos negros como o carvão: Tremere, líder de nossa Casa e que certa vez quase se tornou regente absoluto dos magi de toda a Europa. Na sua esquerda e direita estavam seus aliados mais íntimos, o fervoroso Goratrix e o cauteloso Etrius. Mais ao lado estava a tranqüila e consoladora Meerlinda. Completando o círculo dos sete estavam Arundinis, cuja destruição viria antes do próximo século; Anguisa que não sobreviveria a outra primavera; e Ponticulus que teria apenas poucos minutos de vida.
            Este é meu nome - Ponticulus. O dia em que Ceoris nasceu foi também o dia em que eu morri. Eu estive lacrado nesta prisão desde então.

O RITUAL

        Goratrix tinha examinado o local, desenvolvido o ritual e escolhido o equinócio de outono como o momento mais auspicioso para a inauguração. Sobre este local nós construiríamos Ceoris, a jóia da coroa na série de capelas que Goratrix havia criado por toda a Transilvânia. O território inteiro era rico em vis, a matéria prima que nós usamos para energizar nossas obras. (Perdoe-me, Bitiugers, se eu escrevo o que você já sabe. Talvez você precise mostrar estas folhas de pergaminho para alguém não familiarizado com as nossas práticas). Este ponto, os cálculos minuciosos de Goratrix o haviam revelado, seria o de vis mais abundante. Quando ele passou seu pêndulo de ágata sobre um mero mapa da região, ele estremeceu e parou sobre este ponto.
            Ataques contra as vilas que apoiavam nossas outras capelas tinham aumentado nos últimos meses. Não havia dúvidas de que as crias do inferno estavam por trás destes ataques. Este local iria requerer defesas extraordinárias, em função do grande poder que nos oferecia. O lugar haveria de ser mais uma fortaleza de poder do que uma torre de aprendizado, uma base forte na qual nós poderíamos dominar o cenário sobrenatural por centenas de léguas em todas as direções. Tal construção se adequaria bem às inclinações de nosso líder Tremere, bem como as nossas próprias.
        Mas primeiro, o lugar tinha de ser consagrado. Os últimos raios de luz se esvaíram do céu. Goratrix iniciou o ritual. Ele retirou a mitra de ouro de sua sacola e desparafusou suas sete partes. Ele deu uma parte para cada participante, a parte de cima do cetro deu a Tremere, seu mestre. Goratrix revelou o cálice das esferas, derramou dentro dele o antigo vinho que encontrou em Runcu, e adicionou sal de Thoth. Ele o passou primeiro a Tremere, que bebeu dele e o devolveu. Goratrix bebeu também e passou o recipiente a Etrius. Goratrix esperou até que todos os sete tivessem tomado a poção. Ele acenou para seu servo, que estava preparado e tocou um berrante de caça para avisar aos outros lacaios para que virassem de costas. Eles obedeceram imediatamente. Nós nos despimos de nossos mantos, expondo aos ventos frios nossos corpos flácidos e que há muito não eram banhados pelo sol. Goratrix perguntou se algum dos presentes desejava fazer um sacrifício maior que o dele. Nós sabíamos que não era para objetarmos, pois tudo fazia parte do ritual. Ele forneceria as raízes, a semente e o tronco da grande árvore que seria Ceoris. Ele invocaria o poder da axis mundi, a mítica árvore do mundo que é o centro de toda existência. Tremere deu a foice para Goratrix. Ele a pegou em sua mão direita, levando-o entre suas pernas com a mão esquerda. Evidentemente, ele pensou que precisaria somente de um simples golpe em arco com a foice para arrancar seu falo. Mas levou mais que isso. A carne nem sempre cede, mesmo para uma lâmina. Goratrix teve que serrá-lo fora. O sangue no local jorrava como uma fonte. O sangue respingou em Meerlinda, Etrius, Tremere e no resto de nós. Eu ainda me lembro da sensação quente e úmida de seu sangue batendo contra a pele nua de minha barriga. Nenhum de nós recuou. Nós sabíamos que Goratrix tinha a mágica para, eventualmente, fazer crescer seu pênis de volta. E eu confesso que nós acabamos nos acostumando e insensibilizando a atos de rituais sombrios, e desenvolvemos um gosto pelas mais assustadoras páginas de nossos tomos. Mais importante, nós sabíamos que qualquer interrupção, qualquer falha em manter o cântico, seria fatal para a mágica. Goratrix fez careta, enrijeceu-se, lacrimejou e ergueu a parte que arrancou e a mostrou para que nós a víssemos. Atordoado, ele o pôs sobre o ponto desejado. 
        Então veio minha vergonha. Talvez uma vergonha que salvou minha alma. Certamente uma que me deu um tipo de existência monstruosa ao invés de outro.
        Eu fiz o que não devia ter feito. Eu falhei em me controlar. Eu me lembro da sensação surgindo em mim, o desejo para suprimí-la, minha tentativa de apertar minha garganta, meus olhos se enchendo d'água. Então meus joelhos me traíram, e se dobraram. Finalmente, a ardência em meu estômago. A bile veio e saiu por minha boca. Eu soube naquele momento o que eles fariam para evitar que minha fraqueza arruinasse para sempre aquele local perfeito. Nem por um instante eu pensei que eles me poupariam.
        Tremere deve ter acenado para Goratrix, sancionando o inevitável. Apesar de seu ferimento, Goratrix encontrou a força para dar um passo à frente e, usando a mesma lâmina com a qual havia se mutilado, cortar minha garganta. Eu levei minhas mãos à ferida, e devo ter retirado uma delas em meus últimos momentos, pois a imagem final de meus dias de vida é a de minha palma, vermelha e encharcada.
        Embora eu os odeie, não alegarei que meus assassinos levaram numa boa o ocorrido. Eles ainda não estavam tão acostumados a matar seus próprios companheiros. Arundinis e Anguisa silenciosamente retiraram facas dos bolsos de seus mantos caídos e começaram a rasgar o meu cadáver. As facas, forjadas apenas para  demonstrações ritualísticas, mostraram-se mal adaptadas para a tarefa. Eu vi o restante como se estivesse num lugar alto. Eu os assisti cortar minha carne e serrar meus ossos.
        Etrius tomou a liderança no restante do ritual. Ele apresentou um saco de terra de Creta e o esvaziou no meio do círculo. Ele esperou Arundinis e Anguisa terminarem, e então pegou pelos cabelos minha cabeça cortada. Ele a fixou no monte de terra.
        Agora uma dúvida ecoou pela face de Etrius. Onde colocar o pênis decepado de Goratrix, agora que minha cabeça também tinha de ser enterrada no monte? Etrius observou a face de Goratrix; a nenhum dos dois era permitido falar. Etrius deveria decidir.
        Porque Etrius fez tal escolha? Eu nunca fui próximo de nenhum deles. Tudo que eu posso dizer com certeza é que, com seus dedos, Etrius abriu minha boca morta. O filho de um Viking bastardo de alma podre pôs o membro de Goratrix dentro de minha boca, e depois a fechou. Ele jogou a terra sobre minha cabeça. Os seis magi remanescentes completaram o cântico. Eles vestiram suas túnicas novamente. Etrius limpou sua garganta, ruidosamente. Os servos de Goratrix ouviram e tocaram o berrante. Arundinis e Anguisa levaram Goratrix para uma tenda, onde Meerlinda realizou um encantamento para parar o sangramento e começar a regeneração.
       Entretanto, certamente não é coincidência que eu tenha permanecido ali, uma sombra invisível com a consistência de fumaça. Os tomos da ordem diziam que era comum para nossa espécie vagar no reino dos vivos por alguns momentos, mas eu ter permanecido todos estes séculos testifica o poder em ação daquela noite amaldiçoada. Ao colocar o membro de Goratrix em minha cabeça decepada, Etrius ligou-me ao local. Aquele demônio pedante alegaria inocência, mas não confie nele Bitiurges. Ele chegou a posição de braço direito de Tremere através de astúcia e traição, assim como o resto de nós. Ele quis que eu sobrevivesse, talvez para ser seu espião ou escravo - ou talvez para seu próprio deleite. Não confie nele.
  
A CONSTRUÇÃO

        A construção começaria ao início da primavera. Neste meio tempo, minha alma assassinada observava grupos de lacaios esquadrinharem o lado da montanha, explorando e mapeando suas muitas cavernas naturais. Construtores e mineradores consultavam-se com Goratrix, mais mal-humorado que o normal neste inverno prolongado, definindo os detalhes do mais grandioso projeto de engenharia desde a queda de Roma. Goratrix queria coisas difíceis, coisas mundanas, queria fazer sua fortaleza contra as criaturas: soldados calejados pela guerra, muralhas reforçadas, poços mortais, uma porta corrediça e armadilhas.
        Eu encontrei um lar numa pequena semente debaixo da terra. A primavera veio. A semente começou a crescer. Eu tinha uma forma novamente, embora não a de um corpo humano.
        Um dia Goratrix veio, com Arundinis e Anguisa, para se certificar de que o sinal estava presente. Se o presságio estivesse certo, as centenas de trabalhadores que tinham preparado poderiam ser trazidas ao local. Supostamente deveria haver uma muda de árvore crescendo no ponto onde eles enterraram minha cabeça. Eu os surpreendi. Eu saboreei o olhar de choque e raiva em suas faces. Eu era uma coisa grande feita de carvalho com folhas oleosas retorcidas. Eles chegaram perto e viram, entalhada na casca, minhas feições de zombaria.  Eu abri minha recém crescida boca, babando seiva, e os avisei que haviam feito a vontade de uma coisa que nenhum deles conhecia. Eu senti os seres “Estrelas-Além” e “Raízes de Tudo” subindo através de minhas raízes sombrias. Já estava praticamente revelando seus nomes quando Goratrix atingiu a árvore com um feitiço de fogo. Eu revidei. Meus galhos perfuraram o tórax de Anguisa antes de Goratrix e Arundinis me matarem pela segunda vez. Novamente eu estava reduzido ao status de uma sombra medíocre. Eu ouvi Goratrix fazer Arundinis jurar silêncio. Ele procurou ao redor por outra muda, tirou-a do chão e replantou-a onde minha árvore esteve.
  
 A CONSTRUÇÃO: 981-985

        Por quase cinco anos eu os observei completarem a estrutura. Como um formigueiro humano, pequenos grupos de pedreiros, demolidores, mineradores, marceneiros, ferreiros, carroceiros e operários trabalharam sobre a supervisão do engenheiro chefe de Goratrix. Novamente, estes eram todos homens comuns, indignos da atenção de magos orgulhosos.
        Como o prazo se aproximava, Etrius veio examinar o local, e apaticamente questionou a eficiência dos métodos de construção de seu rival. Eu vi Goratrix encolerizar-se. Se Etrius percebeu? Ele era sempre frio como uma enguia, mesmo quando o sangue que pulsava em suas veias era o seu próprio. Eu não pude analisar suas intenções. Etrius pediu, e recebeu autorização de Tremere para melhorar magicamente as fortificações de Ceoris. Ele criou uma fissura massiva na terra, cortando uma trincheira de milhas de profundidade ao redor da capela montanhosa feita por Goratrix - sempre o pequeno acólito, mostrando suas capacidades para o mestre.
        Quando a construção terminou, Goratrix e Etrius examinaram a lista de empregados que trabalharam na construção. Eles selecionaram os homens que sabiam mais do que o conveniente sobre sua nova fortaleza. Eles contaram aos mais sensíveis magos da casa que as memórias dos construtores seriam apagadas magicamente. Eles seriam levados para suas várias terras natais e acordariam de seu sonambulismo com ouro nos bolsos, se perguntando para sempre como o mesmo foi parar ali.
        Goratrix e Etrius mataram estes construtores. Aos outros foi permitido se fixar nas vilas ao redor de Ceoris. Os magi prometeram terras férteis para cultivar e a proteção de seu poderoso castelo. Aqueles que não se viram atraídos por estas ofertas também foram assassinados. Algumas destas mortes foram adiadas: Eles morreram muitos anos depois sobre as mesas de Tremere e Goratrix. Eu acredito que eles estavam tentando construir homunculi a partir de carne humana. Uma cobaia de laboratório em particular gritou de um modo singular, como um gato sendo esfolado vivo, e seus gritos ainda ecoam em meus ouvidos.
        (Há alguma coisa que se rasteja entre os pinheiros fora de Ceoris. Eu posso vislumbrá-lo de forma muito fraca, porque está muito longe da fundação na qual eu estou ligado. Seus uivos lembram-me gritos antigos. Você deve encontrar esta coisa, Bitiurges. Isso pode ser um homunculus foragido, ansioso para acertar as contas. Ele pode confirmar este conto, ou contar segredos dos quais até mesmo eu desconheça.)


PRIMEIROS ANOS: 980-999

        Tremere não se mudou para esta nova capela. Como era seu costume, manteve-se indo de um enclave ao outro. Ele nomeou Goratrix senhor de Ceoris, mas também instalou Etrius para trabalhar como seu braço direito. A rivalidade entre os dois homens tornou-se gangrenosa. Goratrix, que anteriormente exercitava um interesse em assuntos carnais incomuns para um mago, agora deitava-se sozinho. Sua “regeneração”  deixou algo a desejar. Ele resmungava incessantemente sobre isso em seus momentos privados. Ele culpava Etrius por sua condição lamentável; se Etrius não tivesse posto o membro em minha boca, tudo teria terminado bem. Etrius fez pouco para aliviar a mente turbulenta de Goratrix, continuamente desaprovando-o por sua suposta precipitação. Este puxa-saco conivente numa tacada só me transformou numa sombra e a Goratrix num eunuco. Outros magi da Casa de Tremere se mudaram para Ceoris. Alguns tentaram se manter em bons termos com Etrius e Goratrix; outros uniram-se entusiasticamente a um rival ou outro.
        Na próxima década e meia, Ceoris repeliu os ataques ocasionais lançados por forças que na época chamávamos de criaturas da noite. Havia ataques criminosos também, com certeza motivados pelos governantes demoníacos da região. Embora os atacantes matassem a muitos camponeses nos arredores, Ceoris permanecia impenetrável. Inicialmente os ataques preocuparam muito os magi. As outras capelas da Transilvânia sofreram mais com ataques inimigos, mas os atacantes sempre falhavam em manter a pressão depois de ataques bem sucedidos. Goratrix e Etrius se tornaram igualmente complacentes. O timing aleatório e execução sem planejamento dos ataques levaram ambos a presumir que as criaturas da noite eram um grupo desorganizado, quase irracional.

UM MISTÉRIO INQUIETANTE

            Durante este tempo, os magos de Ceoris encararam crescentes frustrações em suas pesquisas. Investigações de caminhos mágicos que pareciam promissores mostraram-se, uma após a outra, decepcionantes. Encantos redescobertos encontrados em textos mofados não funcionavam como descritos. Novos encantamentos tomavam mais tempo para serem formulados. Cada mago isolou-se atrás de suas próprias estantes de tomos arcanos, no início nenhum deles notou que seus colegas compartilhavam a sensação medonha de ter chegado ao limite. Na França, a Grande Emanação das Facas Esmeraldas de LeDuc´s entrou em colapsou sem aviso, matando seus dois aprendizes. Alguns descobriram que seus feitiços de imortalidade eram cada vez mais ineficientes para levantar os músculos ou revigorar os ossos cansados. Somente em 995 os magos de Ceoris discutiram seu dilema mútuo e resolveram pesquisar suas causas. Eu vi o medo deles e tive prazer nisso. Eles supostamente eram os mestres de tudo! Seus conhecimentos ocultos lhes davam uma inigualável compreensão de todas as forças atuantes no mundo. Entretanto agora eles haviam provado como são tolos. Alguma força que eles não compreendiam estava minando lentamente o seu senso de controle sobre a existência. Minha gargalhada até tornou-se audível, ecoando através dos meus corredores e subindo até a cúpula da Grande Biblioteca.
        Em 996, Etrius provou que a potência de vis da capela estava lenta mas mesuravelmente diminuindo. Em 997, Ceoris hospedou um grande conclave de magi Tremere que vieram de tão longe como a Inglaterra e Jerusalém. A casa notou agora que havia uma diminuição universal de seus poderes. Seus eruditos expuseram várias hipóteses para explicar o fato. Uma teoria popular era de que a aproximação do milênio tinha mudado as bases numerológicas para a mágica. Outros disseram que as estrelas estavam mudando de posição. Outros ainda diziam que os demônios estavam vencendo a guerra no Céu. O conclave se concluiu em uma orgia de idéias ilusórias; somente alguns dissidentes estavam dispostos até mesmo a conceber a possibilidade de que o poder no qual trabalhavam há tanto tempo, que em muitos casos manteve sua imortalidade, podia acabar como uma vela gasta. Qualquer que fosse o problema, com certeza era cíclico.

        O próprio Tremere decidiu de outra forma. Quando os membros do conclave se foram, ele reuniu os magos de Ceoris e propôs que procedessem como se o pior estivesse para acontecer. Ele pôs Goratrix como encarregado de uma grande investigação sobre o assunto. De 998 a 1000, Goratrix bajulou e coagiu os outros residentes eruditos destes salões a focarem suas pesquisas como ele queria. Através de augúrio, meditações visionárias, cálculos astrológicos e análises alquímicas, eles eventualmente descobriram que seus poderes estavam começando a desaparecer. O caminho hermético estava desaparecendo para sempre. Tanto Goratrix como Etrius contribuíram enormemente na compreensão do problema.
        Etrius queria dividir seus resultados com magos de outras casas. Ele argumentou que se os pesquisadores de Ceoris foram tão longe em tão pouco tempo, os esforços combinados das melhores mentes da Europa certamente poderiam encontrar uma solução ainda mais rápida para o mistério. (Bitiurges, se você passar esta carta para um leitor não iniciado, deve explicar que os magi da Casa Tremere são apenas um dos muitos grupos que compõem a Ordem de Hermes).


        Tremere ordenou a Etrius e a todos os outros, a ficarem em silêncio. Eles naturalmente o obedeceram, mas murmuravam pelas suas costas. Porque ele guardaria o conhecimento que tinham obtido? Goratrix pensou que Tremere pretendia que eles encontrassem novos meios de alcançar a imortalidade para sobrepor o método conhecido, cujo futuro agora parecia incerto. Com tão grande e novo segredo em mãos, sua Casa poderia finalmente governar as outras. Tremere reverteria sua falha prévia em tomar a Ordem de Hermes.
        Foi mais ou menos neste período que Arundinis desapareceu numa jornada ao sul para Atenas, junto com um quarteto dos mais robustos guarda-costas da Casa. Um grupo de busca seguiu a trilha de Arundinis até as margens do Danúbio, onde não acharam nada além de um acampamento destruído e vegetação estranhamente retorcida.

  
OS ANOS DE BUSCA: 1000-1021
            Tremere ordenou a seus seguidores que investigassem todos os possíveis substitutos para seus métodos de imortalidade. Ceoris dividiu-se em grupos rivais, todos com a certeza de estarem certos em seus estudos e ansiosos para provar como errado os métodos rivais. Nuntius supervisionou um projeto para destilar ervas potentes numa nova droga de imortalidade a qual alegava não requerer mágica para funcionar. Paul Cordwood pesquisou meios de medir e então destilar a alma humana. Epistatia se dedicou a uma disciplina a qual nomeou  migração espiritual, pela qual os magi poderiam abandonar corpos envelhecidos em troca de outros saudáveis. A alquimista Therimna enviou grupos para os cantos mais distantes do mundo para que capturassem alguns monstros das lendas, cujas partes foram então misturadas numa variedade de poções de gosto terrível e completamente ineficazes.

ETRIUS BOCA DO INFERNO

        O hipócrita Etrius pesquisou o diabolismo, buscando duplicar os efeitos daqueles rituais de campo proibidos sem realmente fazer contato direto com demônios. Quão típico da parte dele fazer tal distinção sem sentido! O próprio Tremere esteve interessado no diabolismo até sua tentativa fracassada, séculos atrás, de tomar a Ordem de Hermes – ele o abandonou depois de perceber o seu paradoxo central. Demônios fracos o bastante para serem dominados por magos mortais nunca são poderosos o bastante para executarem tarefas que compensem os problemas oriundos de se envolver com eles. Demônios poderosos o bastante para garantir grandes favores não podem ser dominados; sempre enganam o magus de algum modo. Tremere proibiu seus seguidores de se engajarem em contatos infernais, não por fervor moral ou espiritual, mas porque os encantos não eram efetivos o bastante. Etrius imaginou que o poder da adoração diabólica podia estar (ou poderia ser feito a estar) não no poder dos demônios, mas na repetição das demandas ritualísticas. Ele ganhou aprovação de Tremere para embarcar num cuidadoso curso de pesquisa nesta hipótese. Depois de ver ínfimos resultados com o sacrifício de porcos e galinhas, mandou lacaios ao campo para raptar filhas virgens de fazendeiros e camponeses. Ele sacrificou mais de duas dúzias de jovens mulheres durante suas duas décadas de pesquisa. Etrius repetiu seus experimentos com bebês recém nascidos como objetos de sacrifício, sem nenhum efeito melhor. Algumas vezes conjurava demônios não intencionalmente, noutras conseguia nada além de alguns odores nojentos problemáticos.
        Porém, sua falha mais espetacular veio no equinócio outonal de 1003. Ele havia descoberto que as estrelas estavam na posição correta para fazer apelos ao Inferno, um grande ritual foi posto em andamento. Ele tinha os nomes secretos de três príncipes de Dis, ou assim pensou, e estava pronto para fazer exigências em troca de pagamento em sangue de oito novas vítimas. Ele foi bem sucedido muito além de quaisquer expectativas -  abriu um portal para o Inferno, permitindo aos demônios tomar um andar inteiro das catacumbas da capela! Eu não me envergonho do refinado deleite que se abateu sobre mim enquanto as criaturas fluíam das profundezas do inferno, queimando carne e cortando ossos. Dois magi, quatro aprendizes e meia dúzia de lacaios foram consumidos pelo fogo do inferno ou rasgados em pedaços por garras demoníacas, antes de Etrius achar um meio para reverter parcialmente o ritual, fechando a passagem e selando o Inferno atrás do portal.
        Quando a crise passou, as recriminações começaram. Naturalmente, os outros desejavam ver o favorito de Tremere humilhado, expulso ou até mesmo morto, pelo perigo no qual havia posto todos eles. Eles o levaram perante o conclave e exigiram que se justificasse. Seus discursos retorcidos em defesa de suas ações foram deliciosos de observar. Inicialmente argumentou ter feito tudo corretamente, e que outros certamente o tinham  sabotado. Como os olhos de Goratrix se enfureceram quando viu Etrius tentando botar a culpa nele! Eu não pude conter minha risada; os magi não a ouviram, mas viram as chamas de seus candelabros se mexerem. Ao comando de Tremere, Etrius retirou a acusação e então alegou que os demônios enganaram seus sentidos. Certamente, ele disse, seriam compelidos por sua devota fé a atacá-lo. A negação de culpa foi ridícula, e um por um, os outros optaram por sua destruição. Entretanto ao final do conclave, Tremere levantou sua mão e tomou sobre si a responsabilidade pela falha de Etrius. Ele havia aconselhado Etrius, guiado sua teoria e sancionado seu experimento. Se Etrius tivesse de encarar a expulsão, ele próprio também deveria. Alguém queria manter o voto por sua destruição? O conclave caiu em silêncio. Os olhos úmidos de Etrius olhando para Tremere em adoração, eram como os de um cão de estimação.

A SOLUÇÃO DE GORATRIX

        Foi Goratrix quem chegou a uma teoria plausível. Notando que as florestas à noite fervilhavam com supostos seres imortais, resolveu investigar as criaturas. Ele passou anos lendo textos herméticos atrás de informações sobre vampiros, encontrando pouca coisa útil.
        Então alguém deixou a cabeça de Arundinis na entrada de Ceoris. Servos cruzando a ponte levadiça acharam seus restos dissecados numa úmida manhã de Novembro. Indivíduos desconhecidos a tinham colocado  no outro lado do abismo que separa a fortaleza do terreno em volta dela. Goratrix recolheu cabeça, pois queria testar um encantamento que havia encontrado em textos necromânticos nos quais esteve consultando. Realizando um ritual que envolvia moer e ingerir o crânio, Goratrix reviveu momentos cruciais dos últimos dias de vida de Arundinis. Seu grupo havia sido atacado por um grupo de criaturas da noite que ele logo veio a perceber como vampiros. Ele foi mantido vivo por meses e torturado até ceder. Ele revelou muitos dos segredos da Casa para seu torturador; uma besta desprezível chamada Roland. Porém, em momentos de autocontrole, ele também forneceu muita informação falsa, exagerando enormemente o poder dos magos de Ceoris. Goratrix ditou o conteúdo de suas visões para um aprendiz e depois analisou o texto por pistas do paradeiro das criaturas. Ele enviou grupos a procura dos locais de referência que havia visto.
        Em 1005, Goratrix buscou a benção de Tremere para um audacioso ataque. Ele pessoalmente liderou um grupo de guerra ao refúgio de Roland. Seus soldados mais barbaramente leais rasgaram seu caminho através das próprias tropas de lacaios do ancião Tzimisce. Dúzias de indivíduos foram mortos em ambos os lados da batalha, mas os magos unidos finalmente prenderam Roland em correntes inscritas com símbolos místicos e o feriram com fogo. Goratrix prometeu sua liberdade em troca de respostas. De Roland, ele obteve suas primeiras informações de amplitude da história e poder dos vampiros. Ele aprendeu que os vampiros pertenciam a facções, chamadas de Clãs. Roland, por exemplo, era dos Tzimisce, uma família de aristocratas decadentes que moldavam carne como se fosse barro. Ele também aprendeu que estas bestas se reproduziam drenando o sangue dos mortais, então transformando-os num processo conhecido como Abraço. Não posso, nesse curto tempo em que controlo sua mão, revelar tudo que Goratrix aprendeu sobre as criaturas da noite, Bitiurges; devo continuar minha narrativa.
        Quando sua cabeça se saturou com as respostas, embora questões adicionais ainda o iludiam, Goratrix ordenou que Roland Abraçasse dois de seus surpresos aprendizes que de nada suspeitavam, Stephen e Pharus. Ao retornar a Ceoris, Goratrix ordenou que Stephen e Pharus o seguissem descendo até seu oficina privada. Ele se isolou por anos sem alcançar qualquer progresso. Os habitantes de Ceoris logo vieram a falar de Stephen e Pharus usando verbos no passado.

O DESESPERO SE INSTALA
       
            Conforme os anos se passavam e grupo após grupo via pesquisas promissoras surgirem e desmoronarem em falhas, uma atmosfera de desespero desceu sobre a capela. Quando experimentos não corriam como pretendido, os magi lançavam olhares amargos a seus rivais, certos de que haviam sido sabotados. Vincius, aprendiz de Paul Cordwood, foi encontrado estrangulado em sua cama em 1011. Isto aconteceu não muito depois que Epistatia se viu humilhada, na frente de uma reunião de magi, ao falhar em projetar sua consciência na mente de um caçador capturado. Ela acusou Vincius de colocar um mau olhado sobre ela durante sua demonstração. Mas negou envolvimento na morte de Vincius. Nada foi provado contra ela.
        Goratrix veio em sua defesa, mas a um preço: Ele insistiu que ela abandonasse suas pesquisas e o ajudasse com as dele. Epistatia foi recrutada para ajudá-lo a lançar sua consciência para o mundo, ou talvez através dos reinos fantasmas do mundo inferior, na busca de levantar informações adicionais sobre os vampiros. A ajuda de Epistatia permitiu a Goratrix diversos progressos. Tanto que não seria estranho alguém imaginar que foi Goratrix quem matou Vincius de forma que pudesse manter Epistasia ligada a ele (Eu não vi, mas acho que é bem provável). Ele contatou pelo menos duas entidades diferentes que o forneceram instruções cruciais. Tendo sido a árvore do mundo de Ceoris, eu os reconheci como a “Raiz-de-Tudo” e “Estrelas-Além”, os seres que encheram minhas raízes com ódio. As pesquisas de Goratrix continuaram por onze anos.
        Bitiurges, você tem que descobrir o que estas entidades realmente são e o que elas querem conosco. Sem elas, a maldita capela nunca teria sido construída e nossa casa não estaria dividida e amaldiçoada. Talvez, armado com estas informações, você e outros dignos de confiança possam começar a desfazer o que o orgulho e a teimosia nos fizeram.

A TRANSFORMAÇÃO: 1022

            Em 1022, Goratrix anunciou a uns poucos seletos que eles eram necessários para ajudá-lo em seu experimento final. Convidados a juntar-se a ele estavam: Tremere, Etrius, Meerlinda e quatro outros membros mais próximos de nosso fundador. Por sete dias e sete noites os participantes ficaram sem dormir, engajados numa série de rituais tão complexos que as instruções cobriam mil folhas de pergaminho, as quais foram queimadas no decorrer do ritual. No clímax da cerimônia, os participantes caíram sobre os aprendizes Abraçados, Stephen e Pharus, desmembrando-os com mãos nuas, em seguida comendo sua carne e seu sangue, como os Mênades enlouquecidos de antigamente. Saindo do delírio violento eles caíram num estado de eufórica agonia, e depois na inconsciência. Quando despertaram, horas depois, eram mortos-vivos. Vampiros.
        Ninguém além de Goratrix esperava esse resultado. Calderon, o Espanhol, voou em seu pescoço, jurando matá-lo por enganá-lo quanto ao propósito do ritual. Etrius, assustado, acusou Goratrix de envolvimento diabólico de primeira ordem e profetizou que este dia selaria seus destinos. Tremere, porém, imediatamente sentiu a eficácia da mágica de Goratrix. Ele falou naquela sua maldita voz de comando, aquela que é capaz de te fazer esquecer todo senso e decência, e ordenou a todos que parassem. Ele os manteve à mão, ordenando que castelões governassem suas capelas em seus lugares. Eles permaneceram em Ceoris pelos próximos sete anos, lutando para aprender e dominar as novas leis que governavam seus corpos. Cada um se tornou um recluso morador noturno, preocupados que seus companheiros de capela pudessem ver através do ardil. Mas ninguém viu; tipicamente, os outros magos estavam muito preocupados com suas pesquisas pessoais para notar as mudanças na rotina de seus colegas. Eu tentei gritar em seus ouvidos, mas, como num sonho de criança, não pude me fazer ouvir.

Gambitos falhos: 1024-1026
  
        Por décadas eu tenho tentado dominar minha própria nova condição, para exercer algum tipo de poder sobre os eventos em Ceoris. Uma noite, eu acho que em 1024, eu observei Etrius se alimentar de uma outrora inocente garota raptada de um vilarejo próximo. Eu chorei por não poder fazer nada, como fiz tantas outras vezes, chorando lágrimas tão insubstanciais quanto o resto de mim. Mas desta vez as lágrimas caíram sobre a testa de Etrius. Ele olhou pra cima, chocado, e cessou sua alimentação. Etrius conseguiu me ver.
        Eu o odiava, mas ali tive uma oportunidade para falar. Ainda haveria racionalidade o bastante nele para fazê-lo ver o declínio no qual ele e os outros entraram? Se eu pudesse agarrá-lo pelo pescoço e sacudí-lo para que recuperasse a razão, eu teria feito. Mas eu tinha palavras como minhas únicas armas. Eu o contei que tinha observado os rituais exploratórios de Goratrix e Epistatia. Eles sentiram minha presença e por várias vezes tentaram me expulsar, e cada vez eu achava uma brecha pela qual me esgueirar. Eu aprendi que quando humanos bebem o sangue de vampiros, é extremamente improvável que eles se tornem vampiros. Eles se tornam carniçais, meio mortais, escravos daqueles cujo sangue consomem. Mas os patronos espirituais de Goratrix e Epistatia haviam fornecido meios de ignorar esta lei do vampirismo. Eles também forneceram poder para o ritual. Etrius sacudiu a cabeça, rejeitando minhas palavras. Eu pedi que ele relembrasse do ritual, relembrasse as forças invocadas. Eu tinha sentido “Raiz-de-Tudo” e “Estrelas-Além”, sentia que um deles era um tipo de demônio e o outro como alguma outra coisa. Os mais poderosos Tremere, que sempre se consideraram mestres de tudo, tinham feito de si mesmos meros fantoches. E pelo o quê? Pelo o quê? Mera vida,  mera vida! Havia somente um meio de reverter o deslize, para honrar qualquer grandeza que um dia tiveram. Os oito teriam que tomar o controle final sobre suas próprias existências e terminá-las. O suicídio seria a única saída.
        Etrius acenou com a cabeça e concordou em suicidar-se. Ele procurou Goratrix e contou-lhe de seu encontro comigo. Junto a Epistatia, os dois vieram até mim com bocas cheias de mentiras e tentaram me prender para sempre numa cela astral. Não me considere estúpido. Eu estava preparado para uma possível traição, e tinha aprontado uma artimanha fantasmagórica — porque em Ceoris meu poder é grande. De um certo modo, eu sou Ceoris. Pelo menos, sou tão parte dela quanto suas paredes e fundações.
        Destrua-me, Bitiurges. Destrua Ceoris.


COMO OS TZIMISCE SOUBERAM DE NÓS
  
        Se os vampiros Tremere não podiam se matar, eu imaginei que teria de motivar seus inimigos para fazer o serviço no lugar deles. Eu esperei um espião Tzimisce aparecer entre nossos lacaios, e um apareceu. Eu tomei as mãos dele como agora tomo as suas e escrevi cartas para seu mestre, um vampiro chamado Rustovitch. As cartas repetiram os atos de Goratrix na captura e morte de sua cria Roland, o Abraço de Stephen e Pharus e o ritual de usurpação. As cartas encontraram seu alvo e em pouco tempo os exércitos de Rustovitch estavam cercando nossas capelas.

UMA GUERRA DE VERDADE

        Exércitos de carniçais liderados por vampiros varreram as outras capelas Tremere da Transilvânia, destruindo a maioria delas no curso de meros dois anos. Eu tenho, desde então, aprendido sobre os outros Clãs de vampiros que se juntaram na guerra de Rustovitch: os bárbaros Gangrel e os horrendos Nosferatu. Mesmo os magos caíam enquanto onda após onda de enxames de soldados gritando passavam por suas defesas. Sobreviventes se esconderam na floresta e depois se refugiaram em Ceoris. A própria Ceoris sofreu alguns ataques simulados, nos quais Rustovitch pretendia mais desmoralizar os Tremere do que lançar um golpe mortal. Ele e seus aliados estavam vencendo, mas ainda não tinham nenhum meio real de atravessar estas muralhas.
        Como um ingênuo, eu tinha esperança que Rustovitch pudesse ter um meio de matar somente os oito. Eu não queria que ele passasse a considerar todos os magos como seus inimigos. Eu nunca quis uma guerra. Eu cessei minhas cartas e me desesperei pelo meu gambito falho. Eu roguei para que o destino deixasse a loucura me tomar, de modo que eu pudesse esquecer meus erros. Mas ele não me ouviu. Ainda me sinto assombrado pelo fato de que apenas consegui acelerar nossa danação ao tentar detê-la.
  
CRISES INTERNAS: 1026-1036
  
        A escalada da guerra contra as criaturas da noite fez destes muros uma gaiola de terror. Os magi mortais sentiam o horror no ar. Os mais perceptivos entre eles notaram que algo estava muito errado dentro da ordem. Tanto Goratrix como Etrius tinham se retirado das atividades do dia a dia. Outros próximos a eles estavam se tornando igualmente reclusos. Eles restringiram o acesso a muitas das câmaras experimentais. Barulhos estranhos emanavam das câmaras, agora também proibidas para quase todos. Eu admito que desempenhei um pequeno papel em deixar pistas. Abrindo uma determinada porta. Deixando um livro aberto numa página crucial. Entretanto, eu temia intervir diretamente, tendo me comportado tão estupidamente antes.
        Eu tomei cada pequeno prazer que pude em observar as hostilidades criarem desavenças entre os usurpadores. Goratrix argumentava que somente o Abraço imediato de todos os membros da Casa os daria a força que eles precisavam para contra-atacar em pé de igualdade seus inimigos vampiros. Etrius se mostrava um argumentador igualmente fervoroso, mas pela cautela. O Abraço de magi despreparados traria nada além de confusão e traição. Seus colegas tinham antes de ser preparados cuidadosa e metodicamente para abandonarem suas ilusões de moralidade. Tremere concordou com Etrius, mas acabou colocando os dois homens um contra o outro, nutrindo o ódio há muito fervente entre eles. Em várias ocasiões, Etrius se encontrou em necessidade de proteger-se de ataques mágicos exploratórios contra ele. Ele culpou Goratrix e pediu a Tremere por ajuda. Tremere o tranquilizou, mas fez pouco para apaziguar a fúria de Goratrix. Os dois rivais concluíram que seu mestre os estava testando. Eles lutariam, e o vencedor receberia os favores de Tremere. Cada um recrutou aliados entre os magi cainitas. Calderon e o francês LeDuc tomaram partido com Etrius, outros apoiaram Goratrix, e a habilidosa Meerlinda buscou colocar um fim na disputa. A despeito de seus esforços, os dois lados periodicamente atacaram um ao outro durante o curso da próxima década.

INCIDENTE EM TESSALÔNICA
  
        Deste conto crucial, eu só conheço de segunda mão, porque este evento ocorreu muito longe de meus portões e torres. Em 1036, Etrius visitou a capela de outra ordem hermética, os Bonisagi, em Tessalônica. Lá buscou por livros de conhecimentos relativos aos vampiros. Enquanto estava lá, sofreu um ataque de um exército de pequenos e sibilantes homúnculos com dentes de fogo. Eles nasceram de um encanto lançado por Vitório, um magus mortal sob influência de Goratrix, o qual deu errado de tal maneira que sou cruel o bastante para achar divertida. Se a falha ocorreu porque ele usou apressadamente um ritual mal formulado, ou se foi devido à volatilidade da nossa mágica, eu não sei. O encanto retirou o material essencial para os seres autômatos não a partir dos tijolos da capela, como era a intenção, mas da carne e sangue de outros magi adormecidos próximos ao quarto de Etrius. Nenhum dos magi de Tessalônica foi morto, mas vários foram mutilados: Um teve seus olhos perfurados e outro perdeu a carne de ambas as pernas. Furiosos, os Bonisagi rastrearam a cruel magia de volta até a sua fonte. Eles concluíram que Ceoris não estava somente no meio de uma guerra civil, mas seus magos certamente estavam invocando poderes infernais. Em meses este conto se espalhou como um vírus através das capelas da Europa. Tremere passou cinco anos visitando seus colegas poderosos, um após o outro, persuadindo-os de que o incidente de Tessalônica havia sido um mal entendido. Vitório foi assassinado e considerado como o único culpado. Como eu gostaria de poder ter viajado nos ombros de Tremere, para vê-lo fingir, implorar, adular, e humilhar-se perante aqueles que ele considerava como seus inferiores! Mas seus amaldiçoados poderes de persuasão, sem dúvida tomando uma vantagem hábil dos medos e percepções estreitas dos outros, prevaleceram. Os outros concordaram em não impender qualquer ação contra sua Casa. Eu temo que ele até recrutou alguns deles sem contar a qualquer de seus seguidores que havia Abraçado magi proeminentes de outras Casas.

As PEDRAs ANGULARes DA PIRÂMIDE: 1037


        Tremere então cometeu um ato que se tornou o mais aberto segredo do Clã. Usando o incidente de Tessalônica como um pretexto, Tremere convocou os sete para sua câmara, onde os forçou à um Laço de Sangue com ele. Estando no centro da lealdade mística de cada um, poderia terminar a guerra civil. Assim, somente Tremere ganhou com a luta entre Goratrix e Etrius. Se ele deliberadamente atiçou a chama de suas rivalidades, esperando que um deles precipitasse uma ação que justificasse o Laço de Sangue? Claro que sim.
        Tremere contou aos sete que o Laço de Sangue era somente o primeiro passo para a renovação da Casa. A sobrevivência dependia do exercício de uma vontade única e determinada. Ele instituiria uma hierarquia de ferro através da qual cada Cainita Tremere recém-Abraçado no fim das contas obedeceria suas ordens. Ele desenrolou um pergaminho com o qual apresentou um diagrama mapeando uma pirâmide de lealdades. Tremere estava no topo da pirâmide. O Conselho Interno dos Sete, como ele agora chamava seus confederados, ficava imediatamente abaixo de si. Quando o Abraço da Casa estivesse completo, cada um comandaria um número de lordes, que por sua vez supervisionariam vastas áreas, ou reinos, contendo muitas capelas. Os regentes, cada um cabeça de uma capela menor, comandaria os magi e aprendizes que vivessem ali. O Laço de Sangue asseguraria os votos que cada Cainita fez ao seu superior dentro da hierarquia. Na iniciação, os aprendizes beberiam o sangue de seus mestres, misturados com o de Tremere e dos conselheiros. Magi beberiam da vitae de seu regente; o regente beberia o sangue de seu lorde e assim por diante. Este controle firme sobre as ações dos subalternos provaria ser uma arma até maior contra os outros Cainitas do que o domínio Tremere sobre a magia, ele assim disse a seus conselheiros. O caos estava varrendo a Europa e aqueles que ficassem firmes triunfariam.

        Antes de liberar o Conselho dos Sete, Tremere informou-os que Etrius iria acompanhá-lo numa viajem pela Europa e pela Terra Santa na busca de segredos Cainitas. Goratrix finalmente governaria Ceoris sozinho. Um sorriso arrastou-se pelos lábios de cada um — até que um viu o outro. Então as faces dos rivais se mostraram como reflexos num espelho, ambas com suspeitas e descontentamento.

Continua...

Traduzido do House Tremere págs 15 a 24

Obs.: Para ler os trechos já postados e traduzidos do livro House Tremere, clique (aqui)
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